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Por que a ação da Nike caiu? A saída do S&P 100 explicada

Quando uma ação conhecida cai bastante, é comum aparecer uma notícia isolada tentando explicar tudo de uma vez. Com a Nike, a notícia da vez foi a remoção da empresa do índice S&P 100, anunciada pela S&P Dow Jones Indices em 4 de setembro de 2026, com efeito a partir de 21 de setembro. A empresa continuou no S&P 500 depois dessa mudança.

O problema é que essa saída de índice não explica, sozinha, anos de queda no preço da ação. Segundo reportagem da Bloomberg Línea de 7 de setembro de 2026, as ações da Nike estavam cerca de 78% abaixo da máxima histórica no início daquele mês. Os motivos para isso vêm de bem antes do anúncio do índice, e aparecem nos próprios resultados divulgados pela empresa.

Dependência de poucos modelos de tênis

Na explicação da própria administração sobre o terceiro trimestre do ano fiscal de 2025, a Nike reconheceu ter dependido demais de um punhado de linhas clássicas de calçado — casos do Air Force 1, do Dunk e do Air Jordan 1 — e afirmou que precisaria reduzir a oferta desses modelos, sem descontinuá-los, dando espaço para produtos mais novos.

Essa transição é dolorosa por natureza: vender menos de um tênis já consolidado prejudica a receita de imediato, enquanto um lançamento novo ainda precisa conquistar espaço nas lojas, gerar recompra e provar que sustenta volume parecido. O risco de investimento aqui é claro — o produto substituto pode chamar atenção sem ainda ter escala suficiente para compensar a perda de receita dos modelos antigos.

Reconstrução sem depender de desconto

O relatório anual do ano fiscal de 2026 da própria Nike descreve duas frentes rodando ao mesmo tempo: reconstruir a distribuição no varejo tradicional (atacado) e transformar o canal digital da empresa num espaço de venda a preço cheio, sem depender de promoção. Limpar estoque parado, no meio desse processo, exigiu descontos e devoluções em algumas áreas do negócio.

Os números do ano fiscal de 2026 (encerrado em 31 de maio) mostram esse processo de forma desigual:

  • Vendas no atacado subiram 6%.
  • Vendas do canal direto da Nike (lojas próprias e digital) caíram 6%.
  • Vendas na Grande China caíram 11%, com menor fluxo de loja, promoções pesadas e excesso de estoque na região.
  • Vendas da Converse, marca do grupo, caíram 31%.

São variações em valor reportado, sem ajuste cambial. A alta no atacado é um sinal positivo, mas vender mais para o varejista não é o mesmo que o varejista vender mais para o consumidor final — a demanda real ainda precisa se confirmar na ponta.

O lucro caiu mais que a receita

Os resultados do ano fiscal de 2025 mostram a dimensão do problema: a receita anual caiu 10%, mas o lucro por ação diluído caiu 42% — quatro vezes mais. A margem bruta também recuou, puxada por descontos e custos ligados a estoque parado. É como uma loja vendendo menos pares de tênis e ainda cortando preço para limpar prateleira: aluguel, equipe e marketing não caem no mesmo ritmo das vendas, e o resultado final sofre desproporcionalmente.

No ano fiscal de 2026, a receita ficou praticamente estável, mas o lucro por ação diluído voltou a cair, de US$ 2,16 para US$ 2,10 — uma queda menor que a do ano anterior, mas ainda distante do patamar de lucratividade de antes.

O salto de margem que precisa de contexto

No quarto trimestre do ano fiscal de 2026, a Nike reportou margem bruta de 49,2%, um número que impressiona à primeira vista. Só que cerca de nove pontos percentuais desse total vieram da recuperação esperada de tarifas pagas sob uma lei comercial americana específica (a IEEPA), não de vender mais caro ou com mais eficiência.

Tirando esse efeito pontual, a margem do trimestre fica perto de 40,2% — praticamente igual aos 40,3% do mesmo trimestre do ano anterior. Ou seja: sem o benefício tarifário, a rentabilidade operacional do trimestre ficou estável, não melhorou. A recuperação de tarifas ajuda o resultado contábil, mas não comprova, por si só, que o consumidor está comprando mais tênis a preço cheio.

O que fica da remoção do S&P 100

A saída de um índice como o S&P 100 pode gerar ajustes técnicos de curto prazo, já que fundos que replicam esse índice precisam vender a ação removida. Mas, como mostram os próprios números da Nike, o enfraquecimento do negócio — dependência de modelos antigos, canal direto perdendo força, margem sustentada por um benefício tarifário temporário — vinha de muito antes do anúncio do índice. Antes de ligar toda a queda a uma única notícia, vale olhar a série de resultados trimestrais completa; isso não é recomendação de compra nem de venda da ação, apenas um convite a separar causa de coincidência de calendário.

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